Discursos

DISCURSO PROFERIDO PELO DEPUTADO MAURO BENEVIDES

NA SESSÃO DE 26 DE SETEMBRO DE 2012

 

SENHOR PRESIDENTE

SENHORAS E SENHORES DEPUTADOS:

 

Com o objetivo de perpetuá-lo no panteão dos heróis da Pátria, o PMDB idealizou mobilização, por entre os seus filiados de todo o País, em ação rememorativa da indormida luta de Ulysses Guimarães em favor do avigoramento da DEMOCRACIA.

A saga de sua incessante porfia não poderia restringir-se aos que, numa convivência longa ou mesmo intermitente, souberam identificá-lo como um baluarte destemeroso na batalha em prol da reconstitucionalização.

Enfrentando, com incomparável altanaria, os que se contrapuseram à normalidade institucional, soube ele se fazer acatado pelos segmentos conscientizados da sociedade civil brasileira.

Em meio século de afã ininterrupto, extravazou os seus inigualáveis pendores de líder prestigiado, profligando desmandos cometidos contra as prerrogativas públicas e os direitos individuais.

Tornou-se, por seus méritos incontáveis, galvanizador dos nossos sentimentos libertários, preponderando, entre eles, a revitalização dos anseios da Cidadania, transformados quotidianamente em bandeira empalmada com firmeza inabalável.

Consolidou a sigla - da qual foi primeiro presidente o general e senador Oscar Passos -, predispondo-se a sucedê-lo, logo a seguir, imbuído do incontrastável intento de configurar um novo e promissor cenário no qual prevalecessem direitos inalienáveis, postergados por draconiana legislação, ao arrepio dos trâmites legais.

Em algumas oportunidades, quando mais veementes os protestos contra a usurpação de direitos fundamentais de pessoa humana, os seus mandatos estiveram ameaçados, mas preservados, quase sempre, em acatamento à grandeza de esforço inaudito e a exemplar coerência de sua enfática pregação nas tribunas e praças públicas, como a deslumbrante concentração do Vale do Anhangabaú, prestigiada por mais de um milhão de pessoas.

Defrontou-se, nas ruas de algumas Capitais, por onde peregrinava civicamente, com ostensivas e insólitas limitações, obrigando-se a repeli-las com a altivez e sobranceria de sua postura irrepreensível.

No digladiar interno de correntes que se antagonizavam no nosso próprio HABITAT partidário, impunha-se pela indesmentível hombridade legada aos nossos correligionários, mesmo os mais renitentes no confronto exacerbado de paixões ocasionais.

Amargou incompreensões e clamorosas injustiças, a maior delas a ínfima votação atribuída na disputa presidencial de 1989, sem que isso arrefecesse o seu propósito elogiável de propugnador intimorato, reunindo novas energias e retemperando-as para o embate com outras correntes nos arriscados lances de indestrutível liderança, embasada na sua incomensurável força moral.

Mas foi, sobretudo, no restabelecimento do Estado Democrático de Direito que se altearam a tonitruância de sua voz firme e o compromisso de propiciar ao País uma Lei Magna, na qual estivessem explicitamente inseridas as inalienáveis aspirações dos nossos compatriotas.

Numa árdua empreitada de quase dois anos, ele chegou a 5 de Outubro de 1988, obrigando-se a chancelar algumas concessões que longe estavam de macular a sua veraz intenção, direcionada para propiciar ao Brasil algo que nos permitisse vivenciar clima imperturbável de tranquilidade, de consideração às minorias, em muitos dos diversificados estamentos sociais.

Embora adepto confesso do Parlamentarismo, não pôde furtar-se ao reconhecimento segundo o qual o Presidencialismo era o sistema de Governo que mais se ajustaria à realidade nacional, conforme aferido em anterior consulta plebiscitária, apurada, criteriosamente, pela Justiça Especializada.

Patroneou, em cadeia de televisão, candente defesa da SOBERANIA de nossa Constituinte, quando se irrogaram à face da Assembleia hipotéticas concessões que sobrecarregariam, insuportavelmente, as responsabilidades do Erário.

Fê-lo, aliás, sem jactâncias despropositadas, convicto de que excessos não seriam admissíveis, comprometendo o Tesouro naquela época de dificuldades evidentes, perdurantes na área financeira.

Na residência oficial, ao discutir com o vernaculista CELSO CUNHA, o primor ortográfico do novo Documento, enfatizou o nosso desejo de que a pureza do lineamento estilístico estivesse presente em todos os dispositivos aprovados, os quais, dentro de um lustro, experimentariam imperativo procedimento revisional, capaz de corrigir inevitáveis imperfeições legislativas ou qualquer tipo de omissão, diante do contorno de nova conjuntura, na decorrência de breve lapso de tempo de vigência, o que ajustaria a nossa Lei Básica aos ditames impostos por uma nova fase a ser vivenciada pela Nação.

 

Senhor Presidente

Senhores Congressistas

 

Em outubro de 1992, quando meses depois, a revisão se processaria, Ulysses, Dona Mora – a grande inspiradora de sua vida e partícipe de suas glórias – Severo Gomes e D. Henriqueta, todos marcaram, comovedoramente, a população brasileira, ensejando a que continuemos a prantear, como ora o fazemos, um acontecimento lutuoso, registrado nas proximidades de Angra dos Reis, no litoral fluminense.

Se nesse vicênio não deixamos de proclamar o
Senhor Diretas como paradigma de convicções políticas inquebrantáveis, esta Sessão Solene é a comprovação iniludível de que ele – o notável Ulysses – permanece presente entre nós, como fonte perene de incentivo no enfrentamento de embargos remanescentes da crise anterior.

Tudo isso, não apenas justificaria a inserção de seu nome no frontispício desse Augusto Plenário, dentro do qual ele sempre considerou esta tribuna como autêntico ALTO-MOR da DEMOCRACIA.

 

E os nossos discursos, aqui, são prédicas de conotação evangelizadora, quando defendemos princípios éticos norteadores da conduta dos que aqui tomam assento, como representantes populares, ungidos pela outorga legitima, egressa das urnas livres.

O vulto insuperável de Ulysses Guimarães continuou a ser o fanal que direcionará as nossas atitudes, pois assim estaremos reverenciando a sua memória e a tornando imorredoura para todos os concidadãos.

A Câmara dos Deputados, por todos os seus 512 integrantes e por mim próprio, realça, neste evento soleníssimo, o Líder inconteste; o parlamentar brilhante; o orador primoroso; o conciliador de blocos contrários, enfim um Varão de Plutarco, com retilínea conduta, predisposto a servir, sem tergiversações ao Brasil e aos seus milhões de habitantes.

ULYSSES GUIMARÃES não é apenas um símbolo que dignifica o povo brasileiro. É, muito mais do que isso, um precioso patrimônio de coragem, de honradez e de permanente amor à Pátria.

Na oração brotada de seu fervor democrático, aquele 5 de outubro, quando estávamos, V.Excelência, Presidente José Sarney, como Chefe do Poder Executivo e este orador como 1º Vice-Presidente da Assembleia, ouvimos, nítida e enfaticamente, aquele trecho de relembrança que nunca deixará de ser referenciado, quando ele diz lapidarmente: 

“Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonho e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço”.

Esta citação retórica ajustar-se-ia implacavelmente ao instante dramático que ele deve ter enfrentado, pois, também, foi este infortúnio, em mares procelosos, que o levou para o Reino da Bem-Aventurança.

 

  Srs. Congressistas

Aqui continuamos, depois de duas décadas de seu desaparecimento, a prantear a ausência de Ulysses, ora, convictamente, por parte de nossa geração e aquelas que advirão, sequiosas para identificar os maiores lideres da nacionalidade, com acervo inestimável de labores em prol das causas democráticas.

Ninguém o suplantará na grandeza de seu idealismo, fortalecendo-nos para seguir-lhe as pegadas, no desempenho de nosso embate como representantes do povo.

Ulysses, a exemplo do homônimo helênico, continua vivo, circulando nos corredores do Congresso Nacional, na reprise daquela sua enfática conclamação para o cumprimento do dever: “Vamos votar; vamos votar; vamos votar”.

É nesse estribilho ritmado, que, diante de evento grandiloquente, enaltecemos um dos maiores patriotas que engrandeceram as nossas mais sublimes tradições de civismo e brasilidade.

 

                              MAURO BENEVIDES

                       Deputado Federal

 

 

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