Discursos

DISCURSO PROFERIDO PELO DEPUTADO MAURO BENEVIDES
NA SESSÃO DE 05 DE JULHO DE 2007





SENHOR PRESIDENTE
SENHORAS E SENHORES DEPUTADOS:



Até por imposição do bicameralismo imperante em nossa estrutura constitucional, esta Casa não poderia deixar de registrar a renúncia, ontem formalizada, do Senador Joaquim Roriz, ao mandato de representante de Brasília no Senado Federal, o que gerou enorme repercussão na mídia e nos círculos políticos do País.
Tendo escalonado, ao longo de sua vida, por quase todos os cargos na hierarquia do Legislativo – vereador, deputado estadual e federal – além de Prefeito de Goiânia, Vice de Goiás e Chefe do Executivo brasiliense, RORIZ alçou-se à senatoría, com expressiva votação, num reconhecimento ao trabalho desenvolvido em favor da Capital da República, refletido em obras monumentais, algumas delas de ressonância internacional, como é o caso da Ponte JK, aquinhoada com merecido prêmio, em razão de arrojado portento arquitetônico.
Radicado no Distrito Federal há mais de 30 anos, na qualidade de Senador e Deputado Federal, acompanhei a trajetória de RORIZ, desde a primeira gestão, ao exercer, no Senado, a Presidência da Comissão do DF, responsável pela vida legislativa desta metrópole, naquela fase em que ainda não se completaria a autonomia, no bojo da Carta Cidadã, que assinalou o reencontro do País com o Estado Democrático de Direito.
Repetiu-se, agora, o que, anos antes, se registrara com o hoje governador José Roberto Arruda, compelido a abdicar do cargo, o que não o impediu, de eleger-se, para compor a Câmara e, no último pleito, o Governo de Brasília, integrando o Partido Democratas, ainda denominado PFL.
A Carta Renúncia de Joaquim Roriz, reiterando a sua confiança em que os fatos se esclarecerão induvidosamente, tem o seguinte teor:
Excelentíssimo senhor senador Renan Calheiros, digníssimo presidente da Mesa do Senado Federal,
 
Esta é, para mim, mais uma hora – dentre inúmeras que já vivi, em que devo tomar uma grave decisão.
Volto-me para o grande mistério da vida, a força da consciência, o mal ativo e o mal passivo, o mal que causamos e o mal que sofremos.
E sinto que somente me pesa na consciência o mal que venho sofrendo, que tanto me tortura e procura turvar uma vida pautada na dignidade pessoal, no respeito ao meu semelhante, no resguardo da coisa pública, no profundo sentimento cristão.
Minhas reminiscências somente fazem aflorar a longa jornada já percorrida, que tem como timbre minha dedicação à administração pública atestada nas grandes obras que realizei, no transcurso das quatro vezes que governei o Distrito Federal.
Sinto acima de tudo que não se pode viver feliz olhando apenas para si mesmo. É preciso viver para os outros, sobretudo, os humildes, os necessitados, como opção para viver para si mesmo. É o que tenho procurado fazer por toda minha vida, buscando na gestão pública, no governo, certificar ao cidadão que os tributos que pagou receberam bom uso, diante da presença ativa do governante atento às lídimas aspirações da população.
Ocupei a tribuna da Casa à qual pertenço em defesa de meu mandato político. O desapreço dos senadores pelo destino do colega foi notado. Apenas doze eminentes senadores compareceram à sessão.
Por outro enfoque, lamento que o corregedor, senador Romeu Tuma, antes mesmo de o Senado Federal ser formalmente provocado a promover as apurações dos fatos veiculados na mídia, ou quiçá, de apreciar a farta documentação que franqueei a todos, pela qual ficou demonstrada cabalmente a lisura de minha conduta, não se ateve, entretanto, às cautelas éticas impostas ao exercício da importante e elevada posição que ocupa. Ao contrário, agiu despido da imprescindível serenidade, ponderação e senso de justiça, máxime ao externar um juízo de valor em detrimento da honra de seus pares, no caso, ao condenar-me publicamente pela imprensa, sem direito a uma defesa que merecesse a mesma repercussão.
Minha inocência, por mim proclamada e insistentemente repetida, não mereceu acolhida. O furor da imprensa, o açodamento de alguns, as conclusões maliciosamente colocadas lamentavelmente ecoaram mais alto. Pesou apenas o propósito de destruir, neste momento, uma vida pública coroada por relevantes serviços prestados à sociedade, particularmente ao povo mais humilde do Distrito Federal.
Meu alento está em que até mesmo o Ministério Público fez ressaltar que os fatos a mim imputados não guardam a mínima correlação com a malfadada Operação Aquarela. Mais que isto – nesse ponto lamento ter tido acesso aos autos apenas na data de ontem –, é importante ressaltar que esse procedimento apuratório se contrapõe às inverdades e injustiças insistente e maliciosamente divulgadas, embora sem qualquer vinculação com o objeto das apurações relativas à já mencionada Operação Aquarela.
São essas as razões motivadoras do posicionamento a que sou obrigado a tomar, neste ato, tanto mais em respeito ao povo do Distrito Federal que tantas vezes me confiou seu voto.
Não temo que meu gesto seja interpretado como demonstração de fraqueza. Prefiro acreditar na grandeza que se pode colher de quem vive os fatos da história. É que, às vezes, de renúncias depende a honra do cidadão, colocada em risco, não por faltas que tenha cometido, senão pela pusilanimidade de alguns e pela voracidade de interesses políticos – que não se acanham em fazer pré-julgamentos – daqueles que deveriam protegê-la sob a boa sombra das instituições criadas para assegurar o devido processo legal.
A gente de Brasília, os humildes aos quais nunca faltei com meu carinho e assistência – o povo, enfim, haverá de me entender. E todos me farão justiça, compreendendo o sentido de meu gesto: disso tenho plena convicção.
São essas as razões pelas quais devo comunicar a Vossa Excelência e à Mesa do Senado a minha RENÚNCIA ao mandato de Senador da República que o povo de Brasília me conferiu, fazendo-o, ainda, com fundamento no artigo 29 do Regimento Interno desta Casa Legislativa.

Joaquim Domingos Roriz
Senador da República

A renúncia de um Senador da República é algo que traumatiza os que o elegeram e que confiam, agora, numa reparação que lhe restaure a tranqüilidade para conviver com os que sempre o assistiram ao longo de sua vida pública.


MAURO BENEVIDES
Deputado Federal

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