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ADIAMENTO ESTRATÉGICO


O Presidente Lula protelou, estrategicamente, a composição do novo Ministério. Prefere manter os atuais titulares, até que se defina o quadro sucessório no Congresso. Algumas das forças aliadas digladiam-se num descompasso preocupante, capaz de abrir fissuras insuperáveis no bloco responsável pela sustentação político-parlamentar, na próxima legislatura, a iniciar-se no dia 1º de fevereiro vindouro. Nem mesmo a célebre fotografia que agrupava o primeiro escalão governamental documentará a nova investidura. Espera-se que o panorama se descortine, com mais clareza, a partir do instante em que Aldo Rebelo e Arlindo Chinaglia declarem o propósito irrenunciável de postular o mais alto cargo da Câmara Federal.
No Senado, o quadro mostra-se menos confuso, em virtude das hábeis articulações procedidas por Renan Calheiros, com a valiosa coadjuvação de José Sarney. Ambos são mestres em reunir adeptos para fortalecer suas postulações, no caso, a recondução do representante de Alagoas. Some-se a tudo isso o intento peemedebista de, igualmente, pretender – para um dos seus – a posição de sucessor de Aldo, a julgar pelo incisivo pronunciamento do deputado Eunício Oliveira. Alegou, em seu prol, a circunstância de que seu partido detém o maior número de parlamentares, restabelecendo-se, assim, a tradição rompida ao tempo da surpreendente escolha de Severino Cavalcante, e, logo depois, da inesperada eleição de Aldo para substituí-lo, em momento de extrema delicadeza para o Parlamento brasileiro.
Embora o axioma constitucional estabeleça a independência harmônica entre os Poderes, é inquestionável que a interferência do Planalto ocorra com a habitualidade vista em outros confrontos. Daí por que o Primeiro Mandatário pretende imiscuir-se no processo, em busca da conciliação que lhe traga a indispensável tranqüilidade para gerir os destinos do País.
As conversações, nas próximas horas, intensificar-se-ão entre as lideranças, pois ninguém arriscará prognósticos sobre o final da renhida competição. O quadro tende a acirrar-se, uma vez que os aspirantes ao elevado patamar parecem indispostos a fazer concessão, mesmo diante dos apelos de Lula, dirigidos, individualmente, alcançando até aqueles que congregam grupos do chamado “baixo clero”.
Os episódios recentes trouxeram preocupações a Lula da Silva, que não admite insucesso nessa renovada empreitada, no inicio de sua atual investidura, quando muitos de seus planos dependem da chancela congressual.
E uma mesa, sensível ao acolhimento das proposições do Executivo, tornará mais fácil a respectiva tramitação, obtendo ritos privilegiados, previstos no Regimento da Câmara e do Senado, em que pese qualquer ação obstrucionista dos opositores radicais , particularmente os que integram o PSDB e o PFL.
Na primeira das Casas a movimentação é mais penosa, exigindo, quase sempre, intercessão de Ministros para convencer habilmente, os recalcitrantes, os quais costumam reclamar do desacolhimento de pleitos relacionados com emendas orçamentárias, descumpridas inexplicavelmente, em exercícios anteriores.
Além disso, os organogramas para o preenchimento de cargos é outro calcanhar de Aquiles, reformulados, seguidamente, para impedir que determinadas facções situacionistas se hipertrofiem em relação às demais, igualmente pressurosas para a obtenção da fatia do bolo oficial.
Ao delongar o prazo para definições, o Presidente da República confia em que poderá reenquadrar os seus maiores espaços, notadamente nas poderosas estatais, que dispõem de dotações vultosas, de manipulação menos complexa.
Voltando das férias a que fez jus, Luiz Inácio Lula da Silva encontrar-se-á avigorado para suportar o impacto das insatisfações, de modo paciente e tranqüilo, sobretudo quando computou mais de 350 votos na Câmara para respaldar as suas iniciativas em prol do crescimento econômico e o bem estar do povo brasileiro.


Mauro Benevides
Jornalista e Deputado Federal pelo PMDB do Ceará

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